Pão e leite vinham de bicicleta

Minha lembrança mais antiga relacionada à comida é no portão da casa da minha avó. Um portão baixinho, de uma época em que São Paulo não precisava de tantas grades e muros. Nos finais de semana em que dormia na casa dela, lembro que logo cedo eu podia ir até o portão pegar os pãezinhos franceses, que vinham embrulhados em papel pardo, torcidinho nos cantos, e dois saquinhos de leite, deixados pelo entregador da padaria, que vinha de bicicleta.

Ah, os saquinhos de leite. Ela colocava-os em suportes de plástico, tipo porta-saco de leite, para que o líquido decantasse da nata, que ficava por cima, e com uma paciência quase monástica cortava a parte superior da embalagem, tirando cuidadosamente o creme com uma colher. Ai de quem chacoalhasse o porta-saco de leite!

Guardava, então, aquela iguaria em potinhos no congelador e, quando já tivesse acumulado o suficiente, batia tudo energicamente até que se transformasse na mais gostosa das manteigas, a caseira. Depois era dividir, novamente em potinhos, e presentear a família toda, que adorava o sabor clássico de uma boa manteiga.

Claro que o leite tinha que ser Tipo A, coisa que já nem existe mais. Mas, naquela época de inflação alta, o leite era classificado conforme o seu grau de diluição em água. Ninguém se preocupava com diets e lights ou ômega 3. Preço era o que importava. O Tipo A era o leite integral, bem forte e gorduroso e, por isso, mais caro; o Tipo B já era um pouco diluído em água e o Tipo C era o mais barato e o mais ralinho. Com este não se podia fazer manteiga, explicava minha avó com um ar muito sério, típico de quem conta um segredo importantíssimo.

E uma vez lembro que ela pegou os sagrados potinhos com nata, despejou-os na batedeira e pediu para que eu fizesse um creme chantilly. “Mas cuidado! Se bater muito vira manteiga.” Quanto era muito…? E o medo de errar o ponto da nata…!? Por mais que eu adore cozinhar, acho ótimo que hoje exista o creme certo para bater chantilly, porque vai que eu erre o ponto…

Manteiga caseira

Receita de Manteiga caseira

500 ml de creme de leite fresco

Coloque na batedeira, liquidificador ou processador e bata em velocidade média até virar um creme com a consistência da manteiga. Coe o soro que se forma e o que sobrar… pronto, é a manteiga!
Acrescente sal marinho moído se quiser salgá-la ou ervas frescas picadinhas (salsinha, ciboulette, orégano, dill), caso você prefira manteiga com ervas.

Manteiga Caseira

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