Morango, ameixa, uva

Criança tem umas crenças engraçadas e eu acho que a mais comum e divertida delas, relacionada à comida, é que tudo que for vermelho é mais gostoso. Deve ter alguma explicação na cromoterapia, por ser uma cor quente, aconchegante, sei lá. O fato é que suco vermelho, bala vermelha, picolé vermelho, geléia vermelha, é sempre melhor. Óbvio, qualquer criança sabe disso. Em casa, isso era muito mais do que uma crença. Era lei. Até o achocolatado tinha sabor de morango (mesmo que isso pareça um contrassenso de termos). E, para o deleite meu e do meu irmão, na época lançaram um chocolate que vinha recheado. De morango!!! Não podia existir guloseima mais perfeita: chocolate e morango juntos.

O cardápio de frutas na casa da minha avó era sempre muito vasto, coisa de alemão que adora fruta tropical. E variava conforme a época do ano. Assim, variavam também os sabores das geléias que ela fazia. Sempre tinha vários potes de vidro vazios – de café, palmito e picles, lavados, esterilizados e guardados para o caso de ter uma safra muito boa de qualquer coisa que pudesse virar geléia.

geleia de morango

O cheiro pela casa era delicioso. Panelas enormes no fogão, fervendo frutas com açúcar, reduzindo o caldo e transformando a mistura num maravilhoso doce. Morangos, ameixas, uvas, damascos, siriguelas, mexericas, morgots, laranjas. Os sábados reservados para fazer geléia transformavam a cozinha da minha avó em uma minilinha de produção: lavar, cortar e cozinhar as frutas. Enquanto isso, ferver os potes de vidro e suas tampas, limpar com álcool e deixá-los prontinhos para colocar o doce.

E o truque, dizia ela, era deixar os vidros cheios e bem fechados, descansando no armário, pelo menos por 1 semana, para que a geléia “curtisse” seu sabor. Com toda esta produção, ela sempre abastecia o estoque da minha casa, mas, os potes das de laranja, siriguela, damasco, ficavam lá, intocados. Ou minha mãe comia ou eles estragavam, porque, para nós, claro, só existiam geléia de morango, ameixa, uva, ou de qualquer coisa, isso não importava, desde que fosse vermelha. Estas eram consumidas vorazmente: café-da-manhã, lanche da escola, lanche da tarde. Por isso, as panelas enormes no fogão – era preciso dar conta de tanto apetite pelos tons avermelhados.

Amarelo, nem pensar! Foi depois de adulta e com muita parcimônia que fui experimentar geléia de damasco. Que fica perfeita por cima de um queijo brie levemente quente, quase derretendo, acompanhada de torradas. Hummmm…

Geleia de morango

Receita de Geléia de Morango

1 kg de morangos limpos
1 kg de açúcar
1 limão ou laranja

Lave e pique os morangos, coloque na panela com o açúcar, em fogo baixo e deixe cozinhando até ficar com a consistência da geléia. Quando estiver pronto, esprema o limão ou a laranja para quebrar um pouco o doce.

Em tempos de restrição de açúcar, glúten, lactose, calorias, etc, adaptei um pouco a receita e fica uma delícia:

1 kg de morangos limpos
2 colheres de sopa de aceto balsâmico

Lave e pique os morangos, coloque na panela em fogo baixo e deixe cozinhando até ficar com a consistência da geléia. Experimente e se achar que não está doce o suficiente, acrescente sucralose em gotas. Quando estiver do seu gosto, coloque o aceto balsâmico e misture bem, deixando cozinhar mais 2 minutinhos.

O aceto quebra o doce da geléia e dá um sabor delicioso!

geleia de morango

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Pão e leite vinham de bicicleta

Minha lembrança mais antiga relacionada à comida é no portão da casa da minha avó. Um portão baixinho, de uma época em que São Paulo não precisava de tantas grades e muros. Nos finais de semana em que dormia na casa dela, lembro que logo cedo eu podia ir até o portão pegar os pãezinhos franceses, que vinham embrulhados em papel pardo, torcidinho nos cantos, e dois saquinhos de leite, deixados pelo entregador da padaria, que vinha de bicicleta.

Ah, os saquinhos de leite. Ela colocava-os em suportes de plástico, tipo porta-saco de leite, para que o líquido decantasse da nata, que ficava por cima, e com uma paciência quase monástica cortava a parte superior da embalagem, tirando cuidadosamente o creme com uma colher. Ai de quem chacoalhasse o porta-saco de leite!

Guardava, então, aquela iguaria em potinhos no congelador e, quando já tivesse acumulado o suficiente, batia tudo energicamente até que se transformasse na mais gostosa das manteigas, a caseira. Depois era dividir, novamente em potinhos, e presentear a família toda, que adorava o sabor clássico de uma boa manteiga.

Claro que o leite tinha que ser Tipo A, coisa que já nem existe mais. Mas, naquela época de inflação alta, o leite era classificado conforme o seu grau de diluição em água. Ninguém se preocupava com diets e lights ou ômega 3. Preço era o que importava. O Tipo A era o leite integral, bem forte e gorduroso e, por isso, mais caro; o Tipo B já era um pouco diluído em água e o Tipo C era o mais barato e o mais ralinho. Com este não se podia fazer manteiga, explicava minha avó com um ar muito sério, típico de quem conta um segredo importantíssimo.

E uma vez lembro que ela pegou os sagrados potinhos com nata, despejou-os na batedeira e pediu para que eu fizesse um creme chantilly. “Mas cuidado! Se bater muito vira manteiga.” Quanto era muito…? E o medo de errar o ponto da nata…!? Por mais que eu adore cozinhar, acho ótimo que hoje exista o creme certo para bater chantilly, porque vai que eu erre o ponto…

Manteiga caseira

Receita de Manteiga caseira

500 ml de creme de leite fresco

Coloque na batedeira, liquidificador ou processador e bata em velocidade média até virar um creme com a consistência da manteiga. Coe o soro que se forma e o que sobrar… pronto, é a manteiga!
Acrescente sal marinho moído se quiser salgá-la ou ervas frescas picadinhas (salsinha, ciboulette, orégano, dill), caso você prefira manteiga com ervas.

Manteiga Caseira

Receitas em família

Mesmo que a gente não se dê conta, a nossa família molda a forma como somos e as pessoas que nos tornamos na vida. Podemos escolher ser outra coisa e, ainda assim, ela foi a referência para esta escolha – até para ser diferente e trilhar novos caminhos.

Minha avó materna sempre foi uma figura muito forte e presente na minha vida. Sua personalidade era assim e, com a convivência muito próxima, aprendi valores que carrego comigo até hoje (minha terapeuta que o diga…) e aprendi também coisas triviais, simples, que qualquer avó ensina à neta e que, se não se tornaram hobbies, são com certeza deliciosas lembranças, como jogar cartas, tricotar, bordar, costurar e… cozinhar.

Acredito que é este conjunto, do trivial com valores de vida, que nos molda e nos dá a noção de pertencimento, de ser parte de um núcleo familiar. Que é diferente de outros núcleos, é o seu, é onde você se sente em casa. E foi quando ela faleceu que me dei conta de duas coisas, uma prática e outra mais filosófica:
– a geração mais velha da minha família tinha ido embora e eu, de repente, me vi órfã das minhas raízes;
– mas, ao mesmo tempo, já trazia comigo a essência destas mesmas raízes.

Daí surgiu a ideia de escrever estas crônicas. Como era esse núcleo que me fazia sentir segura e “em casa”? Afinal, que raízes eram essas?
Eram todas as lembranças e histórias que ouvi a vida toda e que me diziam quem eu era, de onde vinha. Que me davam a sensação de pertencer a alguém e a algum lugar, mesmo que este lugar fosse dentro de mim.

E, então, percebi que estas histórias e lembranças estavam intimamente ligadas a sabores e aromas que também me acompanharam desde muito pequena. Em receitas do dia-a-dia, naquelas de domingo ou até nas exclusivas para o Natal – que foram se transformando em tradição e ficando cada vez mais insubstituíveis.

Como muitas famílias brasileiras, a minha é uma salada de imigrantes e nacionalidades, de formas de viver, que criaram uma mistura diferente e uma combinação única dos peixes da Escandinávia com as típicas batatas alemãs; do arroz bem temperado brasileiro com a contribuição de cada nora, cunhada, prima, amiga e conhecida que passaram pela vida da minha avó e da minha mãe, deixando com elas um pouco da sua história através do gosto pela cozinha. Mesmo que elas duas, em si, não fossem extamente fãs da arte culinária. Para elas era uma questão de sobrevivência e, na melhor das hipóteses, de receber bem amigos e família.

Receitas de família

Todas estas receitas acabaram ficando comigo; com datas, comentários, datilografadas ou escritas à mão, em pedaços de papel rascunho; em alemão, em norueguês, em português ou nos idiomas misturados; com equivalências de medidas em libras e decilitros; com variações sobre o mesmo tema – como as de estrogonofe, um prato tão requintado nos anos 70/80, que minha avó colecionava qualquer alternativa de preparo que ela encontrasse.

E assim, minhas raízes híbridas também se misturaram a novos ingredientes, produtos e modismos, que eu mesma introduzi. Com lugares e restaurantes que conheci, com barracas de cachorro-quente e pernil na porta de estádios e escolas de samba e botecos do tipo “pé pra fora”, criando um cardápio tão variado quanto saboroso, sempre acompanhado de uma história divertida e, claro, uma boa taça de vinho.

Bom apetite!
Gutten Appetit!
God appetitt!

Frango Xadrez

Frango Xadrez

Ingredientes
2 cebolas médias cortadas em cubos
2 dentes de alho esmagados
500 g de file de frango sem pele cortado em cubos
Sal a gosto
1 pimentão verde cortado em cubos
1 pimentão vermelho cortado em cubos
1 pimentão amarelo cortado em cubos
1/4 de xícara de molho shoyu ou shoyu light
3 colheres de sopa de amendoim torrado

Modo de preparo
Refogue a cebola e o alho. Acrescente o frango e o sal e deixe cozinhar, mexendo de vez em quando. Quando o frango estiver cozido, acrescente os pimentões e deixe cozinhando em fogo baixo por 4 minutos. Acrescente o shoyu e o amendoim. Deixe no fogo baixo mais 2 minutos.

Acompanhe com arroz branco ou macarrão de arroz.

Serve 4 porções.

Frango Xadrez

Batatas e cogumelos gratinados

Champignons e batatas gratinados

Ingredientes
3 batatas tamanho médio fatiadas
2 colheres de sopa de manteiga
250g de cogumelos frescos fatiados
queijo ralado para polvilhar

Modo de preparo
Preaqueça o forno a 220º.
Ferva as batatas com sal até que fiquem macias.
Enquanto isso, derreta a manteiga numa frigideira, junte os cogumelos e cozinhe, mexendo de vez em quando, até ficarem macios.
Escorra as batatas e misture na panela os cogumelos com o suco da frigideira. Misture e coloque tudo em uma vasilha para gratinar. Polvilhe o queijo ralado e leve ao forno até que esteja dourado.

Serve 4 porções

champignons

Eataly São Paulo

O trânsito já caótico da esquina da Faria Lima com a Juscelino Kubitschek em São Paulo (devido a um semáforo pouco colaborativo), hoje teve mais um motivo para parar: a inauguração da loja Eataly. A exemplo das outras 28 lojas da rede espalhadas pelo mundo, a nossa (primeira da América Latina) não fica nada atrás: 4.500 metros quadrados, 7 mil itens comercializados, 7 restaurantes temáticos e um mundo de diversão para amantes da boa cozinha, da curtição de descobrir ingredientes, temperos, receitas e acessórios para celebrar em volta de uma mesa.

Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 1.489, 3279-3300

EatalyFoto Gabriela Biló (divulgação)