Receitas em família

Mesmo que a gente não se dê conta, a nossa família molda a forma como somos e as pessoas que nos tornamos na vida. Podemos escolher ser outra coisa e, ainda assim, ela foi a referência para esta escolha – até para ser diferente e trilhar novos caminhos.

Minha avó materna sempre foi uma figura muito forte e presente na minha vida. Sua personalidade era assim e, com a convivência muito próxima, aprendi valores que carrego comigo até hoje (minha terapeuta que o diga…) e aprendi também coisas triviais, simples, que qualquer avó ensina à neta e que, se não se tornaram hobbies, são com certeza deliciosas lembranças, como jogar cartas, tricotar, bordar, costurar e… cozinhar.

Acredito que é este conjunto, do trivial com valores de vida, que nos molda e nos dá a noção de pertencimento, de ser parte de um núcleo familiar. Que é diferente de outros núcleos, é o seu, é onde você se sente em casa. E foi quando ela faleceu que me dei conta de duas coisas, uma prática e outra mais filosófica:
– a geração mais velha da minha família tinha ido embora e eu, de repente, me vi órfã das minhas raízes;
– mas, ao mesmo tempo, já trazia comigo a essência destas mesmas raízes.

Daí surgiu a ideia de escrever estas crônicas. Como era esse núcleo que me fazia sentir segura e “em casa”? Afinal, que raízes eram essas?
Eram todas as lembranças e histórias que ouvi a vida toda e que me diziam quem eu era, de onde vinha. Que me davam a sensação de pertencer a alguém e a algum lugar, mesmo que este lugar fosse dentro de mim.

E, então, percebi que estas histórias e lembranças estavam intimamente ligadas a sabores e aromas que também me acompanharam desde muito pequena. Em receitas do dia-a-dia, naquelas de domingo ou até nas exclusivas para o Natal – que foram se transformando em tradição e ficando cada vez mais insubstituíveis.

Como muitas famílias brasileiras, a minha é uma salada de imigrantes e nacionalidades, de formas de viver, que criaram uma mistura diferente e uma combinação única dos peixes da Escandinávia com as típicas batatas alemãs; do arroz bem temperado brasileiro com a contribuição de cada nora, cunhada, prima, amiga e conhecida que passaram pela vida da minha avó e da minha mãe, deixando com elas um pouco da sua história através do gosto pela cozinha. Mesmo que elas duas, em si, não fossem extamente fãs da arte culinária. Para elas era uma questão de sobrevivência e, na melhor das hipóteses, de receber bem amigos e família.

Receitas de família

Todas estas receitas acabaram ficando comigo; com datas, comentários, datilografadas ou escritas à mão, em pedaços de papel rascunho; em alemão, em norueguês, em português ou nos idiomas misturados; com equivalências de medidas em libras e decilitros; com variações sobre o mesmo tema – como as de estrogonofe, um prato tão requintado nos anos 70/80, que minha avó colecionava qualquer alternativa de preparo que ela encontrasse.

E assim, minhas raízes híbridas também se misturaram a novos ingredientes, produtos e modismos, que eu mesma introduzi. Com lugares e restaurantes que conheci, com barracas de cachorro-quente e pernil na porta de estádios e escolas de samba e botecos do tipo “pé pra fora”, criando um cardápio tão variado quanto saboroso, sempre acompanhado de uma história divertida e, claro, uma boa taça de vinho.

Bom apetite!
Gutten Appetit!
God appetitt!

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